A temporada de filmes 2019 já começou na Netflix, e parece que o gênero Sci-Fi/Survival chegou pra ficar de verdade. E é nessa pegada que a gigante do streaming lançou IO – Last on Earth.

Ultimamente, não sei se por conta de todos os trabalhos que a Netflix vem produzindo, mas uma coisa vem acontecendo com as produções: tecnicamente, são perfeitas, mas a história deixa a desejar.

E acho que isso acontece com esse filme também.

A fotografia é simplesmente magnífica. O contexto em que a história se passa é muito bacana, apesar de já ter sido feito milhões de vezes. Névoa é sempre um plus para cenas mais sóbrias, e tem aquele contraste bacana entre as áreas dentro e fora da “zona”.

A trilha sonora praticamente não existe, muito por conta do tipo do filme, e isso serve muito melhor que o que aconteceu com Bird Box. O clima desse filme é bem mais solitário, então, fez sentido.

Enfim, o que me deixa realmente chateado é a história.

Resumindo, a trama se passa em um mundo pós apocalíptico em que a terra se volta contra os humanos (ou pelo menos é o que o filme dá a entender), fazendo com que o ar não seja mais “respirável”, por causa dessa névoa de amônia. A protagonista, Sam, é filha de um notável pesquisador que acreditava na recuperação do ambiente e na sobrevivência do ser humano na Terra. Aqueles que não acreditavam nessa teoria se lançaram no espaço e começaram a viver em uma base espacial mineradora estacionada em IO, uma lua das luas de Júpiter, que acabou servindo como colônia.

A história em si começa com Sam tentando aprimorar o DNA de abelhas para criar uma nova linhagem genética imune à atmosfera tóxica, quando, após uma tempestade que destrói praticamente todo o trabalho que Sam e seu pai criaram desde o começo, aparece um estranho, Micah.

E é ai que a história vai ladeira abaixo.

É claro que, quando se conta uma trama de survivalism/sobrevivência, dois pontos tem que ficar muito claros e muito presentes: a relação entre os protagonistas e o ambiente, e a relação entre os seres que são protagonistas e coadjuvantes.

O problema é quando alguma dessas duas partes vira clichê.

É extremamente difícil errar a interação entre os protagonistas com o ambiente, porque a premissa é muito simples: a natureza é implacável e sempre ganha, já que ela também é incontrolável e tem uma escala tão grande.

Agora, a interação entre os seres que são protagonistas é o que a maioria dos roteiros fazem com que as produções fiquem, ou carne de vaca, ou simplesmente fracas, como é o caso aqui.

Em IO, a protagonista, até onde tudo indica, é completamente alienada de conexões humanas, e até pondera se é possível amar a distância e sem conhecer alguém, já que ela troca cartas com um engenheiro que está na colonia, chamado Elon.

Quando Elon manda uma “carta” para Sam dizendo que vai participar em uma expedição de 10 anos espaço a dentro, Sam perde as esperanças de uma interação humana normal, e acaba ficando com Micah…

Eu realmente não entendo qual o público que eles querem atingir, mas a história não faz nenhum sentido dentro desse mundo, dentro do contexto da protagonista, dentro do contexto do coadjuvante, e dentro do período de tempo em que tudo se passa. Os personagens são bem mal desenvolvidos e o arco de cada um não tem nenhuma inspiração, e parece que a história foi feita de última hora.

Quanto à relação entre os personagens, não dá pra entender muito bem a lógica que tentaram colocar. Os textos são tão absurdos e as reações são tão ruins que os personagens acabam se tornando chatos, os únicos dois personagens do filme!

Ainda, não tem nenhum motivo para emplacar um romance em uma trama pós apocalíptica. E se a vontade é tão grande em emplacar esse romance, que faça de uma maneira natural, e não literalmente jogando um personagem em cima do outro sem qualquer contexto plausível.

E denovo, mais uma vez, e sempre que eu falar sobre esse gênero, eu vou comparar com The Road, que é o melhor conteúdo survival que tem por ai: os personagens são extremamente bem desenvolvidos, a interação é paupável, não existem absurdos ou interações forçadas, é só uma história simples, bem escrita, e bem atuada, ou seja, exatamente o inverso do que foi feito em IO.

Falando nisso, a atuação é pobre e forçada. Poxa, Anthony Mackie atua nesse filme, e até a atuação desse ator extremamente experiente é forçada, muito em parte do roteiro.

Bom, no final das contas, mais um filme da Netflix que é um belo de um flop. Claro que os usuários vão assistir, e eu recomendo, mas, mais uma vez, recomendo como uma aula do que não se fazer dentro de uma narrativa. Em um filme com dois personagens, e os dois são absurdamente desinteressantes, não dá pra salvar não. É até chato quando as notas no Rotten Tomatoes fazem sentido.

Caso ainda tiver interesse nesse filme (apesar de que, se você leu até aqui, provavelmente não), ele está disponível para assistir na Netflix, right now!

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