Sorte e azar, depressão e superação, corrupção e princípios, Justiça e Destino, livre-arbítrio e acaso. Fernanda Nia conseguiu entrelaçar todos esses assuntos em seu romance Mensageira da Sorte. 

Já conhecia o trabalho da Fernanda por causa da sua página Como eu Realmente…, mas seu livro foi um achado para mim durante a CCXP18. Ao contrários das HQs, tenho pouco contato com livros nacionais. 

Fui conquistada quando a Fernanda contou que sua história se passa em um Rio de Janeiro repleto de manifestações e violências. O que condiz com a atual realidade da cidade, mas com uma pitada de ficção quando sua personagem principal se torna uma “Mensageira da Sorte”. E foi essa premissa que ganhou meu coração. 

Em pleno carnaval cariosa, durante uma confusão em um protesto contra a AlCorp, Sam passa a ser uma mensageira temporária no Departamento de Correção de Sorte, uma organização extranatural secreta incumbida de nivelar o azar na vida das pessoas. 

Para manter esse equilíbrio, os mensageiros devem distribuir presságios de sorte para alguns escolhidos. E o primeiro “cliente” de Sam é justamente o seu novo vizinho e colega de classe, Leandro. O garoto é um youtuber em acensão e a ajuda dela, na forma de uma mensagem sobre nada menos que paçoca, o impulsiona a fazer um vídeo que o levará para o auge da fama.

O que Sam não sabe é que Leandro também é engajado nos protestos contra a corrupção da AlCorp, sem se preocupar com os riscos que possa correr ou com as chances que tem dado ao azar, e a garota se vê obrigada a usar a sorte do Destino para protegê-lo.

Perdida entre seus sentimentos por Leandro e a culpa pela morte do seu pai, Sam começa a compreender a linha tênue entre o livre-arbítrio e o acaso. Com uma boa dose de sarcasmo, ela embarca na dura jornada de desmascarar o que está deteriorando o sistema da Justiça, tanto natural quanto extranatural. 

Em meio a uma rede de intriga, corrupção e poder, a mensageira da sorte precisará fazer as pazes com o passado e lutar até o fim para que a balança do Destino se equilibre outra vez.  

É muito interessante ver a Fernanda migrando das suas tirinhas para uma história mais extensa, o que ela conseguiu fazer com um grande sucesso, porque eu gostaria muito de ler um segundo volume. 

Sam é uma adolescente de 17 anos que teve uma grande perda em uma das manifestações contra a AlCorp, uma megacorporação que domina a cidade do Rio de Janeiro e aos poucos o país e ao mesmo tempo reprime a população com o uso da P3, uma espécie de polícia contratada pela AlCorp, que não usam armas de fogo, mas usam todos os outros tipos de violência bruta possível. 

A vida de Sam vai mudar durante o Carnaval em Lagoinha, momento que ela deverá enfrentar seus medos e até mesmo fazer algo que ela não imaginaria fazer durante um protesto, o que acabará fazendo com que ela se torne uma “Mensageira da Sorte”.

Mas o que é uma “Mensageira da Sorte”? É o que Sam vai ter que cumprir em poucas linhas da história, mesmo sem acreditar realmente que essa função dentro do Departamento de Correção de Sorte exista. Ou até mesmo que um departamento para corrigir a sorte das pessoas possa existir. 

O primeiro “cliente” de Sam é Leandro, seu vizinho, e seu conselho de sorte tem a ver com paçocas. Mas não para por aí. Durante a narrativa, podemos acompanhar nossa protagonista entregando conselhos para variados tipos de pessoas. O mais interessante em tudo isso é que as pessoas possuem o livre-arbítrio para seguir o conselho. E nos pegamos pensando: será que algum momento eu tive um conselho de um mensageiro da sorte e optei por escolher o caminho do azar? 

E se vocês acham que a AlCorp é a única antagonista da história, você está errado. O maior vilão da história é a sede pelo poder. É a corrupção. A AlCorp está acabando aos poucos com a sociedade, o dinheiro está concentrado apenas nas mãos dos grandes, enquanto preços abusivos são cobrados em cima de medicamentos. Mas não é só o dinheiro que está na mão de uma minoria, a sorte também. O sistema extranatural está sob ameaça, a Justiça está perdendo suas forças e o Destino está prestes a tomar medidas drásticas para poder promover a igualdade. 

E é claro que Sam estará envolvida em toda essa história, precisando superar seus monstros interiores para poder estender a mão e ajudar outras pessoas. 

Apesar da história da Fernanda ser de ficção, há muito da nossa atual realidade política-econômica, há muito, também, sobre a realidade de cada um de nós que sucumbimos aos nossos medos e precisamos procurar algum tipo de força para nos reerguer. 

De início, a história transcorre lentamente, mas a partir do momento que Sam vai descobrindo mais sobre seu novo trabalho e os desafios vão aparecendo pela frente, junto com a sua evolução com os relacionamentos com outras pessoas, a história passa a correr em um ritmo frenético, fazendo com que você sempre fique em “Só mais um capítulo antes de dormir” e quando você percebe, acabou de ler o livro. 

A trama é muito bem iniciada, desenvolvida e finalizada. O que nos deixa um pouco em duvida no início da história, é logo esclarecido em um momento oportuno, que lhe agrada por ter tido aquela surpresa naquele momento, como se você fosse um pouco da Sam ao receber determinadas informações fazendo com que ela fique impactada. 

A escrita é bem clara e moderna, com diversas referências do mundo da internet. 

‘Mensageira da Sorte” foi uma grande surpresa e superou todas minhas expectativas ao misturar um pouco do mundo real com fantasia, fazendo até que eu me pergunte se tudo não faz parte de um pouco da realidade e a Fernanda teve um formulário aprovado pelo Departamento para publicar a história como uma dica para ficarmos mais espertos sobre as mensagens do Destino. 

E uma observação final, o livro conseguiu me transmitir várias emoções ao decorrer da história, desde tristeza, indignação, felicidade e pulinhos estéricos em alguns momentos, raiva e claro, sede por querer mais. Era como se eu estivesse tendo as emoções de quando assisto doramas, mas era um livro, e as imagens e sons estavam na minha imaginação. 

Seria pedir demais que Sam e Leandro ganhem uma série?

Sobre a Autora:

Fernanda Nia é publicitária e ilustradora carioca. Criou o site “Como eu realmente…” em 2011, e “Mensageira da Sorte” é seu primeiro trabalho de literatura. 

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